Explicação | Qual é a região do Cerrado no Brasil? Por que o mundo deveria se preocupar com isso?

  • A expansão agrícola – a principal causa do desmatamento no Brasil – ainda está em ascensão em algumas partes do país.
  • A mais afetada é a região do Cerrado, uma vasta savana tropical que abriga uma grande variedade de vida selvagem e é uma importante fonte de água.
  • Sensores de desmatamento por satélite que emitem alertas para a região do Cerrado aumentaram 43% – um recorde.
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Os esforços do Brasil para deter o desmatamento e as preocupações globais sobre as mudanças climáticas e a perda da natureza concentram-se principalmente na redução da floresta amazônica, cerca de 60% da qual está localizada no Brasil.

Mas embora a protecção da Amazónia tenha produzido resultados positivos ao longo do ano passado, a expansão agrícola – a principal causa da desflorestação no Brasil – ainda está a aumentar noutras partes do país, mostram dados de satélite.

A mais afetada foi a região do Cerrado, uma vasta savana tropical que abriga uma grande variedade de vida selvagem e é uma importante fonte de água para grande parte da América do Sul.

Sensores de desmatamento por satélite emitiram 50% menos alertas nos estados amazônicos do Brasil no ano passado do que em 2022. Mas no Cerrado, as notificações aumentaram 43%, para um nível recorde, de acordo com dados preliminares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

Veja por que o Cerrado é importante e quão vulnerável ele é:

O que é cerrado?

Com uma área de mais de 7.800 quilômetros quadrados, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, depois da Amazônia. Abrange cerca de 23% do território brasileiro, uma área maior que o México ou cerca de quatro vezes o tamanho da França.

É a savana com maior biodiversidade do mundo, com novas espécies sendo identificadas todos os anos, e abriga animais ameaçados de extinção, como o lobo e o tamanduá-bandeira.

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Embora o Cerrado seja geralmente descrito como uma savana tropical, ele também inclui áreas florestais, ambas vitais para desacelerar o aquecimento global, absorvendo e armazenando carbono.

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Quanto do Cerrado foi perdido e por que deveria ser protegido?

Cerca de 52% do Cerrado foi perdido, grande parte dele para dar lugar a plantações de soja e pastagens de gado, de acordo com as últimas estimativas do MapBiomas, uma colaboração entre universidades, organizações sem fins lucrativos e empresas de tecnologia. Em comparação, a região amazônica no Brasil perdeu cerca de 18,5% de sua área original, a maior parte dela para pastagens.

O Cerrado é às vezes chamado de “Floresta Invertida”, com sistemas de armazenamento de carbono nas raízes até 15 metros de profundidade no solo. Comparativamente, a região amazônica possui árvores com raízes relativamente superficiais.

De acordo com dados do Instituto Ambiental IPAM usados ​​para estimar as emissões de carbono provenientes do desmatamento, cada hectare de Cerrado armazena de 25 a 80 toneladas de dióxido de carbono equivalente, dependendo do tipo de vegetação, enquanto as áreas florestais na Amazônia armazenam em média 165 toneladas por hectare. . .

Além do carbono, os sistemas radiculares do Cerrado também armazenam água que é vital para reabastecer oito das 12 bacias hidrográficas do Brasil, bem como os principais aquíferos, o que o levou a ser chamado de “reservatório de água do Brasil”.

Estes sistemas levam séculos a amadurecer e não podem ser facilmente restaurados simplesmente substituindo-os por pastagens ou monoculturas. Os rios que nascem nas bacias do Cerrado brasileiro alimentam todos os outros biomas brasileiros, incluindo partes da Amazônia, bem como bacias na Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina.

Mas uma pesquisa publicada em 2023 descobriu que os rios da região do Cerrado perderam 15,4% das suas águas superficiais desde 1985 devido ao desmatamento e às mudanças climáticas. Estima-se que cerca de 34% serão perdidos até 2050 se o desmatamento continuar nas taxas atuais.

O desmatamento também ameaça a biodiversidade do bioma, colocando em risco 137 espécies animais, incluindo a onça-pintada e o tatu gigante, segundo a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza.

O que leva ao desmatamento no Cerrado?

Existem proteções mais fracas para o Cerrado do que para a Amazônia.

Cerca de 60% da vegetação remanescente do Cerrado está em propriedade privada, sendo apenas 8,21% de suas terras pertencentes a áreas protegidas, o que o torna o bioma menos protegido do país, segundo dados do governo e do IPAM.

Embora 80% do espaço dentro de cada propriedade privada na Amazônia deva ser coberto por vegetação natural de acordo com a legislação atual, apenas 20% a 35% de cada propriedade no Cerrado está sujeita a esta exigência.

Embora grande parte do desmatamento no Cerrado seja feito ilegalmente, essas regras permitiriam potencialmente que pelo menos 30 milhões de hectares do bioma – uma área maior que o tamanho do Reino Unido – fossem legalmente desmatados.

Quase metade da área desmatada no Cerrado entre 1985 e 2022 hoje é pastagem, enquanto o restante é utilizado para produção de grãos, segundo pesquisa do MapBiomas.

O MapBiomas descobriu que a soja – da qual o Brasil é o maior exportador mundial – ocupa três quartos das terras agrícolas do Cerrado.

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O que está sendo feito para proteger o Cerrado?

Em novembro de 2023, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva relançou um plano para proteger o Cerrado, revivendo propostas que haviam sido abandonadas sob seu antecessor de extrema direita, Jair Bolsonaro.

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Entre os seus objectivos estão designar mais terras de propriedade pública como unidades de conservação, ou outras áreas protegidas, e rastrear melhor os incêndios e a desflorestação, tanto legais como ilegais.

Em Dezembro, o governo também lançou um programa para apoiar os agricultores na revitalização de pastagens degradadas ou na sua conversão para a agricultura, proporcionando-lhes uma forma de aumentar a produção sem se deslocarem para novas áreas. Em troca, os agricultores terão de parar de desmatar mais áreas dentro das suas propriedades.

As autoridades também estão considerando a criação de um Fundo Bioma que arrecadaria dinheiro de governos estrangeiros para esforços de conservação ambiental, semelhante ao Fundo Amazônia.

As iniciativas para proteger a Amazônia estão ganhando força, o que em alguns casos aumentou a pressão sobre outras áreas menos protegidas, como o Cerrado, dizem alguns pesquisadores.

A “moratória da soja”, pela qual os comerciantes se abstiveram voluntariamente de comprar soja produzida em áreas desmatadas desde 2008, e a recente lei da União Europeia que proíbe a importação de bens ligados ao desmatamento, protegem a Amazônia, mas deixam de fora o Cerrado e outras áreas. aberto para negócios.

A análise da Trase — uma plataforma que combina dados sobre exportações de commodities com o desmatamento em seu habitat nativo — mostra que as recentes exportações brasileiras de soja e carne bovina para a UE eram mais vulneráveis ​​ao desmatamento no Cerrado, e não na Amazônia.

Ao mesmo tempo, os cientistas têm apelado à reforma da legislação florestal do Brasil para proteger mais terras de propriedade privada no Cerrado, bem como à expansão de iniciativas globais, como uma moratória sobre a soja no Cerrado e noutras áreas naturais.

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