No quintal do Bolsonaro, o banco central do Brasil está pressionando os bancos para seguir uma linha mais verde

Presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, fala durante cerimônia no Palácio do Planalto em Brasília, Brasil, 24 de fevereiro de 2021. REUTERS / Usley Marcelino

São Paulo / BRASILIA (Reuters) – O Banco Central do Brasil se prepara para exigir que os bancos contabilizem as perdas potenciais com fenômenos relacionados às mudanças climáticas, como secas, enchentes e incêndios florestais, em testes de estresse, posicionando-se como líder mundial no setor financeiro regulação baseada na governança ambiental, social e institucional.

A mudança está sendo realizada sob a liderança de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Santander Brasil (SANB3.SA). Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro, que supervisionou o aumento do desmatamento na floresta amazônica, ele é odiado pelos ambientalistas.

Mas como o banco central do Brasil é completamente independente como resultado da legislação que o próprio Bolsonaro apoiou, os céticos da mudança climática minimizaram sua influência na política do banco.

As ações do banco central refletem a pressão crescente sobre os reguladores em todo o mundo para que levem a sério suas credenciais verdes, mesmo sob o risco de interromper o fluxo de crédito.

O aquecimento global é cada vez mais visto como um risco para a estabilidade financeira. O banco central do Brasil disse que desastres naturais causados ​​pelo aumento das temperaturas podem prejudicar os negócios de tomadores de empréstimos ou garantias, colocando em risco 4,2 trilhões de reais (US $ 805,7 bilhões) em amortizações de empréstimos.

Kathleen Krause, vice-presidente de regulamentação do banco, disse que, embora atualmente não haja requisitos de capital específicos para os bancos cobrirem riscos ambientais, o banco central pode impor reservas adicionais no futuro se acreditar que os credores enfrentam riscos mais elevados.

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“Nosso objetivo não é impedir que os credores façam empréstimos, mas conscientizar os bancos sobre os riscos relacionados às mudanças climáticas a que estão expostos”, disse Krause em uma entrevista.

Ela disse que o aumento do nível do oceano pode inundar a terra oferecida como garantia para um empréstimo, levando a perdas para os bancos.

Para cobrir esses riscos, os bancos podem ter que alocar mais capital, o que provavelmente se traduzirá em empréstimos mais caros.

Entre os riscos relacionados às mudanças climáticas listados pelo banco central nas propostas de regulamentação, que foram anunciadas, estão as perdas potenciais causadas pela transição para uma economia de baixo carbono, além de secas e inundações.

Se o banco central do Brasil incorporar os riscos relacionados às mudanças climáticas em seus testes de estresse, que estão em estudo, isso o colocará na vanguarda dos reguladores em todo o mundo.

Alguns países – incluindo França e Holanda – já começaram esses testes, embora vários outros estejam em preparação, de acordo com o Instituto de Estabilidade Financeira.

Previsão do clima

O banco central do Brasil disse que planeja lançar as novas medidas este ano, com implementação a partir de 2022. Mas os bancos estão pedindo até 18 meses para colocar suas casas em ordem.

Os credores dizem que o banco central deve emitir previsões climáticas que todos os credores usem em testes de estresse, acrescentando que eles não têm como prever a rapidez com que as temperaturas vão subir.

“Se cada banco entregar sua própria previsão, o resultado final pode ser muito diferente para o setor bancário”, disse Amore Oliva, diretor de sustentabilidade do lobby bancário brasileiro Verapan.

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O regulador disse que está estudando a demanda e pode fornecer algumas orientações, como cenários climáticos divulgados pela rede de bancos centrais e supervisores para tornar o sistema financeiro mais verde em julho.

No entanto, os bancos reclamam que esses cenários globais são muito gerais e exigem previsões específicas para um país tropical.

Além de incorporar os riscos do aquecimento global aos testes de estresse, o banco central, que regulamenta os empréstimos para projetos na importante região amazônica desde 2008, propôs duas novas regras este ano para empréstimos ambientais, sociais e rurais.

Definiu regras que proíbem empréstimos rurais para projetos em terras indígenas ou desmatadas, ao mesmo tempo em que cria uma espécie de “empréstimo sustentável” para projetos que seguem as melhores práticas da zona verde.

O regulador também está exigindo mais divulgação sobre como os bancos lidam com riscos sociais e ambientais, como assédio, preconceito e desmatamento.

Um caso de discriminação racial, por exemplo, pode prejudicar a imagem de um banco, intimidar clientes e levar a penalidades legais.

no caminho certo

A postura do banco central contrasta fortemente com o histórico ambiental da administração de Bolsonaro, de extrema direita.

Vários grandes investidores pediram ao governo brasileiro que adote uma postura mais firme em relação à proteção ambiental. Eles acolhem com agrado as iniciativas verdes do banco central, mas alertam que este é apenas o primeiro passo.

“A iniciativa do banco central é um ponto de partida positivo. O Brasil está indo do nada para alguma coisa”, disse Daniela da Costa Bolthois, gerente de portfólio da Robeco, com sede na Holanda, que administra 168 bilhões de euros (US $ 199,4 bilhões) em ativos ESG. Mas o governo está um pouco atrasado. “

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De acordo com o Positive Money, um grupo de campanha com sede em Londres, o Brasil tem o segundo banco central “mais verde” do mundo, depois da China, mas as perspectivas de progresso social e política ambiental no Brasil permanecem sombrias sob o Bolsonaro.

Em última análise, o impacto das políticas do banco central será limitado até que o governo do Brasil introduza as políticas fiscais, políticas e industriais necessárias para tratar dos problemas ambientais.

“Ao redirecionar o financiamento, as ferramentas do banco central podem ajudar ou dificultar significativamente a transição”, disse o economista David Barms, economista da Positive Money. “Mas ainda precisamos que os governos liderem o caminho.”

(1 dólar = 52.128 riais)

(1 dólar = 0,8425 euros)

Cobertura de Carolina Mandel em São Paulo Reportagem adicional de Jamie McGyver em Brasília Edição: Matthew Lewis

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