Proposta de moeda comum entre Brasil e Argentina é recebida com ceticismo | O negócio

A proposta dos líderes do Brasil e da Argentina de lançar uma moeda comum é recebida com profundo ceticismo pelos analistas, que dizem que nenhum dos dois países está em condições de enfrentar um empreendimento tão complexo ou inspirar confiança na ideia nos mercados globais.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva disse a repórteres na segunda-feira que a moeda única reduzirá a dependência prejudicial do dólar americano.

“Acho que isso vai acontecer com o tempo, e é necessário porque há países que às vezes têm dificuldade para conseguir dólares”, disse Lula em Buenos Aires após encontro com o colega argentino Alberto Fernandez. “Não devemos, no século XXI, continuar a fazer a mesma coisa que foi feita no século XX.”

Lula explicou que a moeda seria dividida inicialmente entre Argentina e Brasil para comércio e transações entre os dois países, e depois seria adotada pelos demais membros do bloco comercial do Mercosul. Os detalhes permaneceram vagos um dia depois que Lula e Fernandez anunciaram os contornos em um comunicado conjunto publicado no domingo em um jornal argentino. perville.

Falando em Buenos Aires na tarde desta segunda-feira, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deixou claro que a proposta não exigiria a adoção de uma moeda única em substituição ao real brasileiro e ao peso argentino.

Os economistas imediatamente questionaram a lógica do plano entre os vizinhos sul-americanos. As condições econômicas estão se deteriorando na Argentina, onde quase quatro em cada dez pessoas vivem na pobreza. O país tem uma das taxas de inflação mais altas do mundo – 95% em 2022 – e o peso vem caindo constantemente há mais de uma década. Múltiplas taxas de câmbio incluem uma taxa ilegal usada por cambistas de bastidores – uma prática tão bem estabelecida que a chamada taxa do “dólar azul” é noticiada diariamente nos jornais.

READ  Por que a Islândia deve ser seu próximo destino de viagem solo para autodescoberta?!

O Brasil, o maior país da América Latina, está em uma posição objetivamente melhor economicamente, mas dificilmente é um farol de sucesso. Sua inflação em 2022 ultrapassou o teto da meta do banco central pelo segundo ano consecutivo. O riyal perdeu metade de seu valor em relação ao dólar desde 2014, antes de o país mergulhar em sua recessão mais profunda em um século. As perspectivas de crescimento do país continuam fracas e não registra superávit primário desde 2013.

“Nenhum país tem condições iniciais para fazer isso funcionar e atrair outros”, escreveu Mohamed El-Erian, ex-CEO da Pimco, uma das maiores gestoras de investimentos em renda fixa do mundo, no Twitter no domingo. O melhor que esta iniciativa pode esperar é que a palestra crie alguma cobertura política para reformas econômicas muito necessárias.

Fernandez disse que nem ele nem o brasileiro sabem como funcionaria uma moeda entre seus países ou na região. Mas ele disse que eles concordam que depender de moedas estrangeiras para o comércio é prejudicial. A recente valorização do dólar complicou o pagamento de dívidas denominadas em dólares de países em desenvolvimento em todo o mundo, incluindo a Argentina. Seu banco central usa suas preciosas reservas em dólares para saldar suas dívidas externas e intervir no mercado de câmbio para impedir a depreciação da moeda e, portanto, não está disposto a vender dólares a importadores em prol do comércio.

Lula disse que as equipes econômicas dos dois países apresentarão propostas de transações comerciais e bilaterais, em moeda criada após “muitas discussões e reuniões”.

A proposta não é original e não partiu apenas da esquerda.

O antecessor de Lula, Jair Bolsonaro, disse durante visita à Argentina em 2019 que ele e o então presidente Mauricio Macri estavam dando o primeiro passo para a criação do “peso real”. Não houve nenhum sinal de progresso desde então. Há três décadas, os dois países concordaram com uma proposta de criação de uma moeda comum para o comércio conhecida como gaúcho, mas ela nunca foi implementada.

READ  Brasil suspende o novo sistema de pagamentos do WhatsApp

Brendan McKenna, economista de mercados emergentes e estrategista de câmbio da Wells Fargo, disse que a proposta é uma “má ideia” que apenas gerou uma manchete intrigante. McKenna sugeriu que a disparidade entre as condições econômicas dos dois países não deixa chance disso acontecer.

“Digamos que a Argentina estivesse em um lugar semelhante ao Brasil – ainda não acho que funcionaria”, disse McKenna. Você precisará ter muita credibilidade por trás dessa nova moeda. Levou décadas para o euro ganhar essa credibilidade.”

Ainda existem restrições ao euro até hoje, e alguns investidores ainda não querem exposição a ele, apesar do status do euro como moeda de reserva em uma região altamente desenvolvida.

McKenna acrescentou: “Estou lutando para entender como isso vai funcionar para o Brasil e a Argentina, enquanto os italianos e alemães no mundo ainda estão lutando”.

A iniciativa pode ser mais sobre política do que economia, disse Tiago de Aragão, diretor de estratégia de Brasília: Fernandez buscará a reeleição este ano e, em meio ao pessimismo econômico, a ideia de uma moeda única pode atrair eleitores em potencial. Assessoria de risco político Arko Advice.

“Mesmo que eles façam o melhor nessa questão, pode levar 20 ou 30 anos. Com isso, (Lola) apoia Fernandez na Argentina e fortalece Fernandez na Argentina”, disse de Aragão.

Como tal, esta moeda pode ter um destino semelhante ao do peso real e do gaúcho.

“Não pareceu menos estranho quando li os detalhes”, disse McKenna, do Wells Fargo. “Ainda parece loucura.”

PA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *