Mario Zagallo foi tudo para o Brasil, pois foi seu envolvimento recorde que diferenciou a seleção

É uma história de origem digna de um deus.

Mario Zagallo tinha 18 anos quando o Brasil enfrentou o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. Naquela época, ele ainda não havia assinado seu primeiro contrato de futebol profissional e ainda não havia começado a se firmar como um dos jogadores mais bem-sucedidos e queridos de seu país. figuras esportivas. .

Porém, ele esteve no Maracanã em uma importante tarde de domingo de julho. Ele vestiu o verde oliva do Exército Brasileiro e o serviço militar lhe rendeu um lugar de destaque na história. A expectativa era que a Seleção jogasse a partida. O título da Copa do Mundo apareceu pela primeira vez.

Em vez disso, o Uruguai venceu.

“Nossa Hiroshima”, como a chamou o dramaturgo brasileiro Nelson Rodriguez – uma imagem doentia que tentou capturar a profundidade do desespero. Os grandes homens nas arquibancadas choraram. Zagallo, que passou inúmeras horas de infância chutando uma bola no matagal onde mais tarde foi construído o estádio, ficou ali de uniforme, dominado pela tristeza.

Patriotismo e dever não eram apenas palavras da moda para Zagallo, que reutilizava a dor como combustível. Oito anos depois, ele fez sua estreia internacional, iniciando uma jornada que ajudaria a estabelecer o Brasil como uma potência no esporte. Quando se aposentou do futebol, aos 74 anos, já havia participado de quatro campanhas de sucesso em Copas do Mundo – um recorde que permaneceria por décadas.

Havia estrelas brasileiras mais brilhantes e muitos jogadores melhores. Porém, não houve ninguém tão envolvido no destino da Seleção quanto Zagallo. Quando o eterno herói da Copa do Mundo morreu na noite de sexta-feira, aos 92 anos, um pequeno pedaço da identidade nacional do Brasil permaneceu com ele.


Foi a humildade de Zagallo que primeiro o colocou no caminho da grandeza. Jogou como camisa 10 ainda jovem, controlando a linha de ataque, mas decidiu, após a estreia no Flamengo, que não poderia competir com os melhores jogadores de todos os tempos nessa posição.

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Ele se tornou um pupilo. Combinava com seu físico – ele era, para usar a charmosa frase brasileira, “filé de borboleta”, tão leve que precisava correr na chuva para se molhar – mas interpretava a situação de forma diferente de seus pares. Enquanto economizavam energia em dribles brilhantes, Zagallo fez questão de recuar e ajudar na pressão defensiva.

Eles o chamavam de “Formiguinha”, talvez não de maneira totalmente generosa, mas seus empresários o adoravam. Zagallo ajudou o Flamengo a conquistar três títulos consecutivos de campeonatos estaduais entre 1953 e 1955 e foi titular tardio na seleção de Vicente Viola para a Copa do Mundo de 1958. Quando Pepe, uma das estrelas do time, se machucou, Zagallo foi promovido a titular.

Sua diligência tática provou ser uma grande vantagem para Viola, que pôde contar com ele para aumentar o número no meio-campo quando o Brasil perdeu a posse de bola. Após seis partidas, Zagallo venceu a Copa do Mundo e o Brasil derrotou seus demônios.

Zagallo (primeira fila, segunda à direita) após vencer a Copa do Mundo de 1958 (Barratts/PA Images via Getty Images)

Após esse torneio, ele trocou o Flamengo pelo Botafogo, cuja escalação de estrelas composta por Zagallo, Garrincha, Nilton Santos, Didi e Amarildo formou a espinha dorsal da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1962, no Chile. Mais uma vez, a Seleção conquistou o Troféu Jules Rimet. Mais uma vez, Zagallo foi titular em todos os jogos.

Seu legado já poderia estar garantido neste momento. Cada um dos dois vencedores da Copa do Mundo daquela época é lembrado com grande reverência e admiração. No entanto, Zagallo levou o próximo nível ao treinar o Brasil para sua terceira vitória na Copa do Mundo.

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Após uma passagem de sucesso no comando do Botafogo, foi entregue ao técnico do Brasil às vésperas do torneio de 1970. O período de transição não foi dos mais tranquilos, pois seu antecessor, João Saldanha, foi demitido do cargo após não ter se submetido ao ditadura militar no Brasil, mas Zagallo levou o assunto a sério. O que o ajudou foi o bom relacionamento com muitos jogadores importantes, principalmente Pelé, que treinou na Copa do Mundo de 1958 e que considerava um aliado próximo.

O Brasil foi tão arrogante na qualificação que a maioria das pessoas achou que seria uma tolice mudar as coisas na Copa do Mundo. Porém, Zagallo tinha alguns ajustes em mente. Uma delas era transferir Piazza para o centro da defesa, abrindo espaço para Clodualdo, um meio-campista inteligente. A outra abordagem foi colocar quatro dos 10 jogadores do time – Pelé, Tostão, Rivelino e Gerson – e o ala Jairzinho no mesmo lado, um plano que parecia ridículo no papel.

Mas Zagallo conseguiu isso. Rivelino foi transferido para o flanco esquerdo, livre para entrar. Gerson assumiu um papel retraído ao lado de Clodualdo e administrou os assuntos de forma profunda. Jairzinho corria pela lateral direita. Os altruístas Pelé e Tostão atuaram na posição de ataque, revezando-se nas corridas e na criação de chances. Foi uma façanha de gerenciamento do ego, tanto quanto tática, não tirar absolutamente nada de Zagallo. Esse time foi um grande presente para ele, não só para o Brasil, mas para o futebol.

Que ele nunca mais tenha alcançado essas alturas não é nenhuma surpresa. No entanto, houve mais sucessos: Zagallo foi o braço direito de Carlos Alberto Parreira quando o Brasil conquistou a Copa do Mundo de 1994 e levou a Seleção à Copa América de 1997.

Zagallo fala com jogadores brasileiros antes da Copa do Mundo de 1974 (Don Morley/Getty Images)

Esse último apelido é mais lembrado não por causa do futebol, mas pelo clipe de áudio que destacou outro lado da personalidade de Zagallo. Ele parecia ser seu tio legal, mas podia ser bastante irritadiço. Depois que o Brasil derrotou a Bolívia na final, Zagallo olhou descontroladamente pelas lentes de uma câmera de televisão e dirigiu-se aos seus críticos. Sua última frase – “Você tem que ter paciência comigo” – entrou imediatamente no léxico do futebol brasileiro.

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Qualquer que seja o sentimento anti-Zagalo que tenha prevalecido ao longo dos anos – devido à omissão de Romário da selecção brasileira para o Mundial de 1998, por exemplo, ou à sua decisão de colocar Ronaldo fora de forma na final contra a França – já desapareceu há muito tempo. O que resta é o seu legado, imponente na sua profundidade e amplitude.

Zagallo atuou em dois grandes times, depois criou um time ainda melhor como técnico. Incluindo duas passagens como auxiliar de Parreira, ele disputou sete partidas em Copas do Mundo, quatro das quais foram bem-sucedidas. Não admira então que a sua morte – um ano e uma semana depois da de Pelé – tenha desencadeado uma onda semelhante de emoção e tristeza no Brasil.

“Ele era um embaixador do futebol brasileiro”, escreveu Carlos Eduardo Mansour, da Globo, no sábado. “Ele tinha um relacionamento secreto com o camisa amarela. Ninguém o amava mais.”

“A Seleção foi tudo para mim”, disse Zagallo em 2021. Se os times de futebol pudessem conversar, os elogios provavelmente seriam retribuídos.

(Imagem superior: Getty Images)

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