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Ansiedade: Como lidar?

Desde a Antiguidade, médicos e filósofos sabiam que essa condição afligia as pessoas. No mundo atual, vivemos um surto de desordens mentais

 

Por Meyre Gonçalves, do Bem Mais Brasília 
Coluna 2 Dedos de Prosa | 16 de Outubro de 2019 - 13:51h

Foto: Reprodução 

 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país mais ansioso do mundo: 9,3% da população tem algum tipo de transtorno desse tipo. Na cidade de São Paulo, um quinto dos habitantes (19,9%) já teve algum diagnóstico relacionado à ansiedade. Parece que a cada dia que passa, ouvimos falar mais e mais a respeito desse assunto. Alguns chegam até a arriscar que vivemos a época mais ansiosa da história humana (embora não haja como provar isso).

 

Mas será que a ansiedade é novidade e exclusividade do nosso mundo hiperconectado, da “sociedade do cansaço”, como diz o filósofo coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han? Ou será que essa ideia já existia? Antes de responder à pergunta, permitam a mim contar um pouco da minha relação com a ansiedade.

 

Sou ansiosa crônica desde a infância. Desde cedo, tento lidar com o fato de que não sei lidar muito bem com as coisas. Esta categoria inclui muitas coisas, como medo de ficar sem trabalho ou sem dinheiro, de ficar doente, de magoar as pessoas, ser assaltada, me envolver num acidente... A lista é longa.

 

Embora sejam medos normais, a diferença é que, quem é ansioso sente isso praticamente o tempo todo. Qualquer adversidade pode ser interpretada como sinal de que as coisas estão – de alguma maneira – dando errado. Hoje, sabemos por que isso acontece. Ansiosos têm reações desmesuradas porque sua amígdala (órgão na base do cérebro) é mais ativa que o normal. E, adivinhem, ela é responsável por processar, entre outras coisas, o medo.

 

Ter ansiedade é normal, trata-se de um estado emocional até necessário. Ela ajudou o ser humano a evoluir, acreditam pesquisadores, porque nos manteve seguros de ameaças com animais e situações perigosas. O problema é quando ela fica fora do controle e a pessoa se sente ameaçada mesmo quando não há nenhum perigo por perto.

 

Para quem está de fora, pode parecer um exagero, mas quando se entra em um surto desses, é impossível agir racionalmente. O sujeito se vê tomado por um desespero que vai se realimentando e ele não consegue parar o processo. A tentação de amigos, familiares, cônjuges e colegas é dizer: “Calma!”. Mas isso dificilmente adianta.

 

A ansiedade passou a aparecer com frequência nos diagnósticos psíquicos a partir dos anos 1950, conta o jornalista americano Scott Stossel em seu livro Meus tempos de ansiedade. No entanto, a humanidade já a conhece há muito mais tempo. Hipócrates, médico da Grécia Antiga e considerado um dos fundadores da medicina, disse no século IV a.C. que a ansiedade era um problema que deveria ser tratado pela medicina. Platão, o filósofo clássico, acreditava que estar ansioso e deprimido era um problema filosófico, não biológico.

 

Os filósofos conhecidos como estoicos já propunham tratamentos para condições mentais como “aflição”, “preocupação” e, claro, ansiedade, como, por exemplo, Cícero (106 a.C – 43 a.C). Ele já era capaz de identificar a ansiedade como uma característica de uma pessoa ou como um estado mental que um indivíduo sentia em um determinado momento. Eu, claro, me encaixo no primeiro caso, de acordo com Cícero.

 

No século XVII, o acadêmico inglês Richard Burton fez uma revisão da literatura a respeito de desordens mentais desde a Antiguidade até o momento em que vivia. Embora grande parte do seu trabalho, A anatomia da melancolia, tratasse do que chamamos hoje de depressão, Burton também descrevia a ansiedade em seu estudo.

 

Existe, de fato, um período no qual pouco se falava a respeito da ansiedade (pelo menos no que diz respeito aos registros escritos). A ansiedade era diagnosticada, mas outras palavras eram usadas para descrevê-la.

 

A ansiedade voltou a aparecer com força durante o século XIX. Não por acaso, foi nessa época que começou a surgir o que conhecemos hoje como psiquiatria moderna. Os termos usados por Sigmund Freud são a base ­– até hoje – para muitos das palavras que usadas para diagnosticar as desordens de hoje. Na primeira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico (conhecido como DSM), publicada em 1952, apresenta a ansiedade como sinal de condições psiconeuróticas. Ao longo dos anos, as novas edições do DSM entraram em mais detalhes a respeito dessa condição. Surgiram os diagnósticos de síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada e síndrome de estresse pós-traumático.

 

O que isso tudo quer dizer? Por que temos a sensação de que o mundo está cada vez mais ansioso? Essa percepção está correta? É difícil dizer. Hoje, temos mais conhecimento a respeito de como desordens mentais afetam nosso corpo. Talvez por isso existam cada vez mais remédios para tratar delas. Ao mesmo tempo, vivemos numa sociedade conectada, na qual a evolução da tecnologia tem mudado diversos aspectos da vida (social, trabalho, comunicação, economia, só para listar alguns) em grande velocidade. Vivemos também os efeitos de uma crise econômica (a de 2008) que continua a afetar milhões de pessoas.

 

A ansiedade provavelmente existe desde que o ser humano surgiu. É o que a pesquisa científica sugere. Mas talvez estejamos criando um mundo no qual essa característica seja hiperativada, deixando milhões de pessoas doentes. Basta olhar para o seu celular, para o sua SmartTV, a “uberização” do trabalho, a “tinderização” dos relacionamentos.

 

Para ser sincera, me traz um certo conforto saber que minha ansiedade nada mais é do que um exagero de algo que ajudou nossos antepassados e fez a humanidade chegar até os dias de hoje. No entanto, me assusta saber que esse mesmo mundo é justamente um dos fatores que fazem pessoas como eu viverem permanentemente tensas, preocupadas, angustiadas.

 

É comum ouvirmos que somos uma geração de ansiosos, mas isso é verdade? Quais fatores estão envolvidos nos transtornos de ansiedade?

 

Diante de eventos importantes, como uma entrevista de emprego ou uma prova difícil, é comum ficarmos ansiosos. Ficamos preocupados com algo que ainda não aconteceu e esses pensamentos são constantemente alimentados pela imaginação. Em resposta a isso, o corpo passa a se preparar para enfrentar um desafio: hormônios são liberados na corrente sanguínea, os músculos se tensionam, o coração bate mais rápido e a boca fica seca.

 

“Uma das características do sucesso da espécie humana é a capacidade de antecipar o perigo, o que requer uma preparação geradora de ansiedade”, explica Márcio Bernik, médico psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Ansiedade do IPQ (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP). Ou seja, a ansiedade é um estado emocional “normal” que precede a conclusão de algum evento. 

 

Medo, insegurança e angústia são emoções que todo mundo sente em algum momento ou situação. Entretanto, indivíduos com transtornos de ansiedade (um dos mais incidentes na atualidade, ao lado da depressão – assunto que podemos conversar também, caso tenha interesse) apresentam uma complexidade maior de sintomas. O modo como reagimos a esse agente estressante diferencia uma “ansiedade normal” de uma patologia. É utilizado o termo ‘transtorno’ porque ele se refere a algo que desorganiza a vida do indivíduo e gera um sofrimento excessivo. A pessoa passa a ter prejuízos em diversas esferas. Não consegue sair, manter um emprego, entre outras.

 

Os distúrbios de ansiedade são provocados por desordens do sistema nervoso simpático que liberam na circulação quantidades muito altas de hormônios envolvidos na reação de estresse. Quando não tratados, o risco de o indivíduo desenvolver transtorno do pânico é alto. Uma crise de pânico é algo que pode acontecer de repente. É um medo muito intenso que leva a pessoa a pensar que vai morrer.

 

A ANSIEDADE ESTÁ AUMENTANDO?

Foto: Reprodução 

 

Em 1947, o escritor anglo-americano W. H. Auden escreveu sobre as incertezas de sua época no poema “A era da ansiedade”, que lhe rendeu um prêmio Pulitzer. O título hoje é visto em profusão em revistas e jornais, e embora possa até ter se tornado um clichê, talvez tenhamos, de fato, chegado a esse momento. Um dos estudos mais recentes na área, que reuniu dados epidemiológicos de 24 países, demonstra que quase 30% dos habitantes da região metropolitana de São Paulo apresentam transtornos mentais. O trabalho faz parte da Pesquisa Mundial sobre Saúde Mental, iniciativa da OMS (Organização Mundial da Saúde) que analisa o abuso de substâncias e distúrbios mentais e comportamentais. Os transtornos de ansiedade foram os mais comuns, afetando 19,9% dos entrevistados.

 

Em fevereiro deste ano, a OMS divulgou um relatório mostrando que o número de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo era de 264 milhões em 2015, com um aumento de quase 15% em relação a 2005. Pesam nesse cenário, dizem especialistas, fatores socioeconômicos, como pobreza e desemprego, e ambientais, como o estilo de vida em grandes cidades, além do excesso de tarefas que acumulamos ao longo dos anos.

 

Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre transtornos de saúde mental, estatísticas e diversos tipos de tratamento disponíveis, desde medicamentos até terapias comportamentais e meditação. Mas é difícil saber se estamos mais ansiosos agora, pois não havia tantos indicadores e pesquisas desse tipo no passado. Talvez em outras épocas  tivéssemos outros problemas de saúde mental. Estamos diagnosticando mais atualmente e as pessoas também estão procurando mais ajuda.

 

O QUE FAZER?

 

O tratamento dos transtornos de ansiedade inclui o uso de medicamentos antidepressivos ou ansiolíticos, sob orientação médica. O tratamento farmacológico geralmente precisa ser mantido por seis a 12 meses depois do desaparecimento dos sintomas e deve ser descontinuado em doses decrescentes. Entretanto, outras opções de tratamento estão surgindo.

 

Dr. Daniel Barros, professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e autor do livro “Pílulas de bem-estar”, revela que seus pacientes estranham quando ele sugere a meditação como tratamento coadjuvante para reduzir a ansiedade. “Mas, doutor, como vou conseguir ficar quieto?”, é uma dúvida que ele costuma ouvir nesses casos.

 

Parece um pouco distante da nossa realidade considerar a meditação como alternativa para transtornos de ansiedade e ataques de pânico, mas algumas práticas, como o mindfulness (atenção plena, um tipo de meditação), já são utilizadas nos EUA e na Europa desde o final da década de 1970. A Inglaterra inclusive já incorporou a técnica em seu prestigiado sistema público de saúde, o NICE.

 

Por aqui, a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mantém, desde 2011, um programa de treinamento e estudos sobre o tema. O programa se chama “Mente Aberta” e atende pacientes do SUS encaminhados via Secretaria de Saúde. Por ali já passaram cerca de 400 pessoas. “Normalmente, são pacientes que não conseguiram resolver o problema pelo viés farmacológico e encaram o mindfulness como uma cartada final".

 

O plano terapêutico tem oito semanas de duração e os participantes se reúnem semanalmente por um período de duas horas e meia. Para controlar a ansiedade, a pessoa precisa se concentrar no aqui e agora. São utilizadas técnicas para aprender a ter mais consciência da própria respiração e do próprio corpo. Quarenta e sete porcento do nosso tempo é utilizado para pensar em outras coisas, por isso é importante esse treinamento da atenção. Antes a gente parava e descansava; hoje, paramos e mexemos no celular. Triste.

 

Meyre Gonçalves é graduada em Matemática, Análise de Sistemas e de Suporte. É colunista do Bem Mais Brasília e apaixonada pela Capital Federal. 

 

vitorias.2008@gmail.com 

@harmoniapazebem

 

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