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Tempo e finitude

Por Hulda Rode, do Bem Mais Brasília
Coluna Crônicas da Huldinha | 11 de Outubro de 2019 - 12:00h

Foto: Reprodução 

 

Vamos falar sobre a hora do adeus? Passamos a nossa jornada da vida e nos preparamos para momentos importantes, desde o nosso nascimento, e durante o curso preocupamo-nos em ter e fazer, mas em algum momento quando temos essa oportunidade esquecemos do ser.

 

O ser é quem deixará registrado em nossas memórias aquilo que somos, o nosso patrimônio humano impresso na vida do outro.

 

Precisamos falar sobre finitude. Existem muitos livros que falam sobre finitude ou tanatologia (estudo científico sobre a morte), mas eu gosto de dois autores que tratam esse tema com a seriedade e a saudade que o nome leva. “Viver Em Paz Para Morrer Em Paz - Se Você Não Existisse, Que Falta Faria?”, de autoria de Mário Sérgio Cortella, e “A morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Claudia Quintana Arantes são publicações que nos convidam a pensar mais sobre a vida.

 

O filósofo Cortella discute sobre o que é importante nessa vida. Mais do que acumular títulos e recursos materiais, o que no fim das contas realmente importa é fazer falta para alguém. Já a médica paliativista Ana Claudia levanta uma bandeira pouco discutida no campo médico: cuidados paliativos. O que fazer por um paciente quando não há mais possibilidades de cura?

 

É exemplo de livro que merece ser lido no mínimo uma vez por mês, com o propósito de renovar o nosso compromisso com a vida, pois ele não trata apenas da morte, e sim, da vida. É um livro sobre vida e humanidade.  A autora fala sobre a arte de ganhar existem muitas lições, mas e sobre a arte de perder? Ninguém quer falar a respeito disso, mas a verdade é que passamos muito tempo da nossa vida em grande sofrimento quando perdemos bens, pessoas, realidades, sonhos. Saber perder é a arte de quem conseguiu viver plenamente o que ganhou um dia.

 

E é sobre perder pessoas que gostaria de falar. Nos últimos quinze dias eu disse adeus a duas pessoas importantes em minha vida. Não eram amigos, não eram familiares, eram pessoas. O primeiro eu conheci no ano de 2003, ainda quando tínhamos o hábito de nos comunicar com as pessoas por meio de correspondências.

 

Era uma sexta-feira do mês de setembro, quando publiquei uma fotografia saudosista de um paciente com síndrome de Treacher Collins que nos deixou no ano de 2019, e então, chega uma mensagem me informando que o A.L estava internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital de Base, cujo quadro clínico de saúde era muito grave, e sob a ótica da Medicina não havia nenhuma terapia que pudesse restabelecer a sua condição. Pedi ao seu irmão que me permitisse fazer uma visita com o propósito de dizer: até logo!

 

E assim consegui visita-lo no dia seguinte. Foi uma tarde memorável, pois ali deparei com o título de Ana Claudia. Será mesmo que a morte é um dia que vale a pena viver? Quando me vi diante daquela situação, tive as recordações sobre quem era a pessoa que estava habitando aquele leito. Uma pessoa que sempre teve interesse em cultivar as boas amizades. Sempre destinou o seu tempo para encaminhar mensagens positivas sobre a vida e sobre a fé. No dia seguinte, manhã de domingo, ele partiu. E tivemos a última chance... a última. 

 

Passou-se uma semana, também era uma sexta-feira, e eu estava navegando em uma rede social, quando a mãe de uma paciente de Goiás, atualiza a sua foto para uma imagem de luto. Aí a perguntei: quem foi o familiar que faleceu? Isso porque ela tinha duas pessoas em sua família em condições de saúde grave. E por alguns minutos buscava informações, quando o que menos gostaria de ler percebi que havia partido E.M, outra paciente, mas também uma pessoa. Ela vivia com o diagnóstico de Neurofibromatose, morava no Estado de Goiás e realizava os tratamentos em Brasília. Nos conhecemos por meio das redes sociais e mantivemos contato por mais de 6 anos. Nossos encontros em Brasília sempre falávamos sobre vida, sobre como ela aceitava o prognóstico de uma doença rara, sobre as incertezas e conflitos desse jogo da existência e sobre as atualizações dos pacientes. Em nossa roda de conversa tinha de tudo. O que me chamava a atenção na E.M era o seu rosto que portava uma alegria e uma beleza ímpar de quem só é goiano tem. É aquele sorriso que acalma, que alegra e que é companheiro. Se olhássemos somente o retrato, não perceberíamos a Neurofibramotose. Nosso último contato foi no mês de agosto, e silenciamos pela distância e correria do dia. Não tivemos tempo para um adeus ou um saudoso até logo.

 

Essas despedidas eu enfrento de uma forma muito diferente. O sentimento é de saudade. Saudade de quem partiu sem deixar adeus. Saudade de quem viveu e deixou um legado humano. Saudade de quem soube viver com poucos recursos. Saudade de quem soube cultivar boas amizades. Saudade de quem ouviu que o diagnóstico era grave, e mesmo assim, escolheu viver.

 

Saberá morrer quem souber viver. Nossos dias estão contados, assim como um relógio que marca o tempo, assim é nossa vida. Tão curta, tão breve, tão intensa e tão passageira. Gratidão aos partiram: nos vemos no céu!

 

Referências:

 

Cortella, Mario Sergio. Viver Em Paz Para Morrer Em Paz - Se Você Não Existisse, Que Falta Faria?. São Paulo: Editora Planeta, 2017.

 

Arantes, Ana Claudia Quintana Arantes. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.

Hulda Rode é escritora na Editora HR e escreve quinzenalmente para o Bem Mais Brasília. As crônicas de Huldinha falam sobre vida e sobre gente de Brasília, e sobre esse cotidiano que nos cerca.

 

E-mail: huldarode@gmail.com

@huldarode

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