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‘Se meu filho fosse branco ele teria recebido ajuda’, desabafa mãe de vítima de Suzano

Sandra Regina é mãe de José Vítor, 18 anos, estudante sobrevivente do ataque em uma escola de Suzano, e que foi sozinho ao hospital porque as pessoas se negaram a socorrê-lo

 

Por Renan Omura, da Ponte

Brasil | 20 de Março de 2019 - 11:17h

José Vítor ainda precisa de cuidados no braço e ombro direitos, feitos pela mãe, dona Sandra Regina. [Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo]

 

Um adolescente caminhou quase 400 metros com um machado fincado em seu ombro na cidade de Suzano, na Grande São Paulo. Negro, José Vítor Ramos Lemos pedia socorro nas ruas. Vítima do ataque feito por dois agressores brancos na Escola Estadual Raul Brasil no dia 13 de março, ele recebeu ajuda apenas quando chegou ao hospital. Uma cena nítida de racismo, conta sua mãe.

 

“As pessoas não entendiam o porquê um menino estava com um machado cravado no ombro e ficavam sem reação. E eu tenho certeza que se meu filho fosse branco ele teria recebido ajuda”, diz Sandra Regina Lemos. “As pessoas viram que ele estava com uma machado cravado e pensaram ‘O que ele fez para ter sido machucado?’, pensando que ele teve culpa da machadada”, critica.

 

Sentada no sofá de casa ao lado do filho, a dona de casa reconhece as dificuldades que José Vítor enfrenta na vida por ser negro. O caso vivido em decorrência do ataque na escola em que ele estuda é apenas um exemplo. Sandra cita coisas mais simples na vida que impactam igualmente o jovem, não precisando ter um machado fincado no ombro para o racismo dar as caras. “Por exemplo, se meu filho fizer uma tatuagem ele vai ser muito mais mal visto do que um garoto branco. As pessoas vêm um garoto negro tatuado e logo pensam que é cadeeiro”, cita a mãe.

 

José Vítor prefere não classificar como preconceito o fato de ninguém ter prestado ajuda em um momento de desespero. O jovem imagina que o que aconteceu não foi na maldade. “Eu pedi ajuda, mas ninguém quis me ajudar. As pessoas ficaram olhando para mim, ficaram sem reação. Na minha opinião, as pessoas não me ajudaram porque não sabiam o que fazer”, comenta. “Eles ficavam olhando assustados e não faziam nada. E eu sabia que tinha que ir para o hospital, então eu não pensei em voltar para casa, fui sozinho”, relembra.

 

O estudante estava com a namorada no intervalo da escola Raul Brasil na hora do ataque. Ao ouvirem os primeiros disparos, viu Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, matar a inspetora Eliana Regina Oliveira Xavier, uma das vítimas. Para fugir, ele correu em direção aos fundos da escola com outros alunos. José Vítor tentou pular o muro, mas ao perceber que a namorada não iria conseguir, decidiu ficar.

 

Marca deixada pelo machado, que permaneceu fincado no ombro até ser retirado em cirurgia. [Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo]

 

“Na hora que eu vi ele recarregando a arma eu corri em direção a porta. Eu achei que tinha escapado, mas tinha outro assassino no saguão. Eu tentei correr, mas ele cravou o machado em mim”, relata, explicando que entendeu o jeito de agir dos assassinos – além de Guilhemre, Luiz Henrique de Castro, 25, também agiu. “Eu percebi que ele atirava nas pessoas que estavam sozinhas e que estavam paradas. Era mais fácil para acertar”, afirma.

 

Sem escapatória, o adolescente recebeu a machadada de Luiz Henrique. “Eu senti o machado entrando em mim. Ele tentou tirar, mas eu empurrei a mão dele e saí correndo com o machado pendurado”, lembra. A ação é elogiada pela mãe. “Alem de guerreiro, meu filho foi um herói. Se ele não tivesse pegado o machado do assassino, imagina quantas pessoas ele teria matado com o machado nas mãos?”, questiona dona Sandra Regina.

 

Após sair da escola e não conseguir ajuda, o jovem sobrevivente foi caminhando até o hospital Santa Maria e foi medicado. Ele ficou internado durante quatro dias e depois de passar por um procedimento cirúrgico, ele recebeu alta no sábado (16/03). José Vítor relata que quando chegou no local, foi atendido rapidamente, mas só ficou tranquilo quando recebeu uma ligação da namorada.

 

“Ela me ligou e disse que estava tudo bem. Durante o ataque ela disse que ficou abaixada em um canto e conseguiu se salvar. Foi um alívio”, conta. Apesar de tudo que passou, ele pretende continuar estudando na Escola Estadual Raul Brasil. “Eu quero voltar logo. É uma boa escola e eu não pretendo sair de lá”, conta.

 

Volta à escola e homenagens

 

Na tarde desta segunda-feira (18/03), José Vítor foi até à escola e participou de uma homenagem aos amigos assassinados. Por volta das 15h, cerca de 40 pessoas foram até o local para colar cartazes, levar flores e acender velas. O primeiro dia de escola aberta desde o ataque serviu para os estudantes pegarem os pertences que ficaram no local quando tentaram se salvar. Os professores receberam atendimento de psicólogos, que os auxiliaram a como lidar com a questão do ataque, seja consigo próprio ou no convívio com os estudantes.

 

José Vítor não pensa em deixar a Raul Brasil: ‘É uma boa escola e eu não pretendo sair’. [Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo]

 

Gabriel Emídio dos Santos, 16 anos, estava no momento do ataque e se escondeu dentro da cantina para se proteger. Ele compareceu no encontro para fortalecer os amigos. “A ficha ainda não caiu. Não está sendo fácil, mas temos que seguir a vida. Desejo forças para todos nesses dias de dor”, comenta o rapaz. Continuam internados os alunos Anderson Carrilho, Adna Isabella de Paula, Jenifer da Silva e Leonardo Martine Santos. O sepultamento das vítimas foi de muita comoção.

 

Além de estudantes, pessoas de outras cidades foram até a Raul Brasil demonstrar apoio. É o caso de Antonio da Paz, morador de Guaianases, bairro da zona leste de São Paulo. Ele caminhou a pé até a escola, um trajeto de 13 quilômetros, para prestar solidariedade às vítimas sobreviventes. “Temos que incentivar os jovens sobreviventes à voltarem a estudar com o pé direito, pois dependemos dos jovens para termos um país melhor. Como pai, eu fico preocupado e muito triste por essas famílias, por isso todo apoio é bem-vindo”, conta.

 

Em nota, a Prefeitura de Suzano informou que entre os dias 18 e 22 de março a escola estará realizando atendimento estratégico para acolher os alunos, familiares e funcionários. A partir desta terça-feira, as atividades de acolhimento psicológico serão voltadas aos alunos. Serão oferecidas consultas livres com apoio psicológico, terapias em grupo e rodas de conversa.

 

Nesta quarta-feira (20/3), a escola estará aberta para familiares de vítimas e a comunidade no entorno da Raul Brasil. O entendimento é que os vizinhos e moradores de Suzano também são impactados pelo massacre e, quem sentir a necessidade, terá direito ao apoio. Os serviços estarão sendo realizados das 8h às 17h. A data de retomada das aulas ainda não foi definida.

 

Alunos, amigos, vizinhos e moradores de outras cidades prestaram homenagens às vítimas. [Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo]

 

O ataque gerou comemorações em um fórum racista e misógino na internet, o Dogolochan – os chamados ‘chans’ reúnem os incels, ou celibatários involuntários, homens frustrados sexualmente, racistas, pedófilos e misóginos. Participantes da página na deep web afirmam que atiradores frequentavam fórum e teriam avisado de seus planos. Integrantes deste grupo promovem perseguições e fazem ameaças na internet. Segundo o procurador federal Daniel de Alcântara Prazeres, o monitoramento por parte do grupo de combate a crimes cibernéticos da PF (Polícia Federal) para controlar e fiscalizar os ‘chans’ “não funciona“.

 

Além de debater o funcionamento de plataformas que disseminem racismo, misoginia e pedofilia, o massacre na escola Raul Brasil retomou a discussão sobre a flexibilização da posse de armas, ação feita pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) em uma de suas primeiras medidas na presidência. Protestos em seguida ao trágico acontecimento cobravam maior controle por parte do Estado.

 

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