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Vamos falar de HIV?

Por Wallinson Leandro, do Bem +Brasília
Coluna Fora do Armário | 28 de Setembro de 2018

Quero conversar com você a respeito de um tema muito importante. Mas vamos tratar de uma forma leve e tranquila como sempre deveria ser. Vamos falar sobre o HIV. Até hoje, o tema ainda é, para algumas pessoas, assunto que dá medo. É cheio de tabus e mitos. Muito disso por total falta de conhecimento.

 

O HIV é um vírus que atinge a imunidade do ser humano e o deixa suscetível a várias doenças. Ele também é conhecido como vírus da AIDS, que é um estágio da infecção quando a contaminação não foi tratada, por isso há uma diferença entre quem é portador do vírus HIV, mais conhecido como soropositivo, e quem tem AIDS.

 

Os avanços na medicina contra o vírus felizmente vêm crescendo no decorrer dos anos. Hoje, quando uma pessoa descobre que foi contaminada, pode recorrer ao tratamento e ter uma vida saudável e normal. Inclusive, com o tratamento correto, a pessoa chega a ter a carga viral indetectável.

 

Essa semana, mais um estudo trouxe ânimo: cientistas criaram um anticorpo que atinge 99% das cepas do HIV:

 

“Cientistas criaram um anticorpo que ataca 99% das cepas de HIV e pode prevenir a infecção em primatas. Ele foi desenvolvido para atacar três partes críticas do vírus tornando mais difícil para ele resistir aos seus efeitos”[1]

 

Vamos conhecer um pouco da história do Mário Daniel. Ele é fotógrafo e hoteleiro, tem 32 anos e é soropositivo há 10 anos. Natural de Imperatriz - MA, aos 11 anos de idade foi para Goiás e, em 2006, mudou-se para Recife - PE, onde reside atualmente. Mário criou um canal no YouTube, chamado Prosa Positiva, para falar de uma forma mais aberta e clara sobre o vírus HIV. Deu certo. O youtuber tem quase 1.700 inscritos.

 

 

ENTREVISTA

 

Bem +Brasília: Como foi a descoberta do HIV?

 

Mário Daniel: Descobri aos 26 anos. Em 2011. Porém, minha suspeita de infecção vem de 2007. Descobri por acaso. Não tive nenhum possível sintoma que me levasse a fazer o teste. Na realidade, o que houve foi meu namorado da época ter “pulado a cerca”. Ele contraiu uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST). Ao levá-lo para fazer os exames e o tratamento, aproveitei para atualizar meus exames. Foi quando veio o reagente para HIV.

 

B+B: Você sofreu muito quando descobriu?

 

MD: Não. Nunca deixei uma lágrima cair por causa do vírus. Já tinha certo conhecimento sobre viver como soropositivo e isso me fez ter calma para colocar as ideias no lugar e dar continuidade a minha vida.

 

B+B: Como você começou a lidar com essa nova realidade?

 

MD: A primeira coisa que fiz, ao descobrir minha sorologia, foi recorrer a meu ex-marido e a uns casinhos que tive até meu penúltimo exame. Relatei direta ou indiretamente pra eles a necessidade e o motivo para fazerem o exame. Depois falei para alguns familiares e amigos. Duas semanas depois, já havia passado pela infectologista e feito os exames iniciais de carga viral e cd4.

 

B+B: Como foi o tratamento no início? Há sintomas? Como o seu corpo reagiu aos remédios?

 

MD: Na época, o protocolo de adesão era diferente. Só começava o tratamento quem estava com as taxas em uma situação que poderia ter problemas para desenvolver a AIDS. Sempre tive bom cd4 e carga viral bem baixa. Só em 2016, após lançar o canal, decidi aderir ao tratamento. Como eu abordo a necessidade da adesão, seria estranho não dar o exemplo. E não me arrependo. Em poucos meses, já estava indetectável. Não tive problema algum com os efeitos colaterais. Até brinco dizendo que fui iludido.

 

B+B: Como sua família e seus amigos reagiram ao saberem que você é soropositivo?

 

MD: Agradeço a Deus pela família e por algumas pessoas que surgiram e permanecem na minha vida. Nunca me trataram com pena, mas sim como o Daniel de sempre. E isso é gratificante!

 

B+B: Ainda há muita associação entre a pessoa viver com o vírus e ter uma vida sexual ativa?

 

MD: É quase impossível falar de HIV e não trazer a sexualidade no tema. Um sempre estará conectado ao outro. É necessário falar não só da importância do uso do preservativo, mas também de outros meios de prevenção como a profilaxia pré e pós-exposição[2].

 

B+B: Ser soropositivo implica na tentativa de um relacionamento? Como as pessoas reagem quando diz que é portador do HIV?

 

MD: Ser soropositivo não te impede de viver um relacionamento. Mas o seu preconceito sim. Muitos, ao descobrirem a sorologia, entram em uma bolha e acreditam que ninguém vai querer estar com ele/ela. Não é bem assim. É necessário a pessoa se perdoar e se aceitar, se amar acima de tudo. Estar com alguém é ótimo. Mas, melhor ainda, é estar bem com si mesmo. Eu sempre preferi falar antes de qualquer envolvimento. Se for para ganhar um fora, que venha antes de me apegar. Mas, contar ou não, é algo individual. Cuidar de si e do próximo é um dever de todos. Alteridade sempre.

 

B+B: Hoje em dia muita coisa mudou com relação ao tratamento e a maneira como tratamos o HIV. Hoje sabemos que com o tratamento certinho a pessoa pode ficar com a carga viral indetectável, o que é maravilhoso. Você acredita que existe muita pré-conceito sobre saber do HIV e que o estigma que se instalou no decorrer dos anos?

 

MD: Infelizmente preconceito sempre vai existir. Vemos isso com o negro, a mulher, o gay. Com um soropositivo não seria diferente. Mas sabemos que existem pessoas e pessoas. Hoje o soropositivo tem mais qualidade e maior expectativa de vida do que há alguns anos. Se cuidar vai além da adesão ao medicamento. Cuidar do corpo, e principalmente da mente, é fundamental.

 

B+B: Como surgiu a ideia do canal?

 

MD: Há alguns anos, queria fazer palestras. O fato de, até então, não ter a sorologia aberta me prejudicava. Depois que contei para minha mãe, ficou tudo mais fácil, pois minha maior preocupação era a reação dela. Então, decidi usar um meio que chegaria a mais pessoas. O projeto é para todos: soropositivos e soronegativos.

 

Além de trazer minha vivência com o vírus, há convidados – desde profissionais de diversas áreas a outros soropositivos. A intenção é abrir mais o leque de assuntos e aderir aos direitos humanos. Com isso, venho abordando o tema transexualidade sempre que tenho uma oportunidade.

 

E o Prosa passou a ser além de um canal no YouTube. Com o apoio e a parceria da ONG Gestos, aqui no Recife, passei a fazer palestras em universidades. Junto com o grupo Ativismo Jovem, vamos a clínicas e hospitais que fazem o tratamento e damos um suporte levando informação.

 

B+B: Você recebe muitos pedidos de ajuda para enfrentar os primeiros momentos da descoberta do HIV?

 

MD: Diariamente muitas pessoas me procuram para desabafar, pedir informações, alguma orientação. Sempre me coloco à disposição, por e-mail, whatsapp ou in box do Facebook. Dúvidas sobre prevenção, como lidar com a nova rotina, enfim, questionamentos, dos mais simples aos mais complexos. E é gratificante saber que você ajuda pessoas de diferentes lugares do País e do mundo.

 

B+B: Deixa um recado para as pessoas que descobriram recentemente que são soropositivas.

 

MD: Ame cada pedacinho de você! Saiba que somos maior que o vírus. Você não está sozinho. Cuide da mente. Mantenha o coração e a mente em paz e busque sempre informações. A adesão ao tratamento é importante para que possamos nos manter bem. Se achar necessário, busque uma ajuda psicológica. Algumas ONGs disponibilizam ajuda psicológica e jurídica. Há também alguns grupos online, como a Rede Mundial, onde você terá a oportunidade de conhecer pessoas de diversos lugares e trocar ideias.

Você pode saber mais sobre a Prosa Positiva acompanhando o projeto nas redes sociais, acesse: Instagram, Facebook, YouTube.
 

Não deixe de saber! Se você teve alguma relação sexual sem camisinha, procure o Centro de Testagem Rápida (CTA) mais próximo de você e faça o exame.

 

Cuide-se, use camisinha.

 

Recentemente a ONG Gestos lançou uma cartilha sobre adesão com uma leitura jovem e bem informativa. O download é gratuito e você pode baixa-lo aqui!

 

1. Trecho de matéria do UOL. Acessado em 25 set. 2017, às 20h. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2017/09/22/cientistas-criam-novos-anticorpos-capazes-de-atacar-ate-99-dos-tipos-de-hiv.htm?cmpid=copiaecola>.
 

2. Para saber mais sobre PreP e PEP, acesse <http://www.amigospositivos.com.br/pep-prep/>.

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