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Com quase nada, gêmeas viraram ícones de moda da favela e de todo o Brasil

Tasha e Tracie Okereke começaram cortando peças de dois reais e pintando estampas com canetinha

   Ensaio de moda de Tasha e Tracie Okereke. (Foto: Reprodução/Expensive $hit)  

 

"A indústria da moda não me representa, porque até quando ela tenta não ser excludente, ela é”. Quem disse isso foi uma mulher de 22 anos, preta, da favela paulista do Jardim Peri e que trabalha, vejam só, com moda. Tasha Okereke é irmã gêmea de Tracie e, juntas, elas vêm ganhando o mundo com seu blog Expensive $hit e outros projetos focados em trazer autoestima para a mulher negra através da moda, da música e da cultura de maneira geral.

 

“Os pretos do Brasil precisam de autoestima para poder se impor e desenvolver as coisas”, quem fala dessa vez é Tracie. E é com conhecimento de causa.

 

Se seu currículo tem projetos já apoiados por marcas como Nike e Melissa e a dupla se considera It-Favela (referência de moda das comunidades), lá atrás não era bem assim. “Na adolescência, a gente era complexada. Achava que a mulher preta nunca seria a menina que namora, de que alguém gosta na escola, que todo mundo acha bonita”, lembra Tasha. “A gente chorava todo dia por causa do cabelo. Nessa época, roupa era pra gente se cobrir, porque não tinha grana, comprava uma vez por ano”.

 

Mas as duas juram que, mesmo neste período, o gosto pela moda já estava nelas – especialmente o gosto pela moda africana, que entrava em suas vidas através da influência do pai nigeriano. E, mesmo não se enxergando nos programas de TV que assistiam, buscavam inspiração na música, em nomes como Tupac, Snoop Dog e Diana Ross.

 

 

     Fruto da necessidade    
 
 

Até que, um dia, as duas ganham uma blusa de presente e decidem deixar a peça mais a sua cara: cortar embaixo, fazendo um cropped. “A gente não tinha nem o básico e só ganhava as coisas. Ai era natural customizar as roupas”, lembra Tasha.

 

Brechós que vendiam peças por um ou dois reais eram a fonte primária da dupla, que transformava cada roupa para conseguir transmitir sua identidade. Para isso, cortar era a principal ferramenta, já que não tinha custo. “Quando queríamos uma estampa, a gente escrevia com caneta”.

O hábito logo chamou a atenção de uma amiga, que deu a ideia de fazerem um blog. Nascia, em janeiro de 2014, o Expensive $hit, que tiraria Tasha e Tracie do anonimato.

 

 

    Primeiras fotos na cozinha    
 

  (Foto: Reprodução/Expensive $hit  )

 

Sem internet em casa, elas usaram o computador de um tio para começar. Tasha passou a noite criando o blog e, de madrugada, acordou a irmã. “Colocamos um colchão na frente do fogão e fizemos as fotos ali”, conta. Para subir os arquivos, usavam lan houses e casas de amigos. A proposta: “mostrar que é possível se vestir escandalosamente bem com MUITO pouco (muito mesmo)!”

 

Desde o começo, o blog fez sucesso entre jovens de periferia, que podiam encontrar ali editoriais de moda lindos, que nunca custavam mais de vinte reais. Logo, elas também passaram a promover festas e, em algum momento, conquistaram o reconhecimento.

 

Foram procuradas por marcas, desenvolveram diversos projetos e a vida mudou.

 

“O que mudou? Acho que o principal é que a gente não trampa mais de camelô, né? A gente tem dinheiro para fazer compra de mercado, se eu vou pro rolê, dá pra beber alguma coisa”, diz Tasha.

 

     O que elas estão tocando agora?    
 
 

  (Foto: Reprodução/Expensive $hit)  

 

O blog ainda existe, mas não é atualizado com muita frequência. Isso não quer dizer que as gêmeas estejam à toa. Em março, fizeram o primeiro desfile próprio, através do coletivo Mulheres Pretas Independentes da Favela (Mpif), que tocam com Aniele Ribeiro e Valérie Alves. Na passarela, só mulheres negras da favela.

 

“Todo mundo ama nossa cultura, mas ninguém quer ver a gente vestindo a nossa cultura. Eles preferem pegar uma pessoa branca e pintar de preto do que chamar quem realmente criou”, explica Tasha e completa: “Quando a indústria convida a gente para participar de alguma coisa, querem higienizar a gente. Querem nossa influência (negra, da favela, de origem africana), mas não quem somos de verdade”.

 

Além do coletivo, elas seguem fazendo festas, principalmente nas quebradas de São Paulo. As gêmeas não querem só levar cultura e moda para a periferia, mas também cursos profissionalizantes, aulas para as mulheres aprenderem a cuidar do próprio cabelo. Nos planos, também estão aulas de história. O próximo sonho à vista? Lançar uma marca própria.

 

“Nossa! Tem muitos projetos, esses são os que a gente pode falar. A ideia é que o nosso dinheiro volte para a periferia. Que o dinheiro do preto volte para o preto e todo mundo enriqueça, é uma ambição bem grande”.

 

E se em outras bocas isso poderia soar sonhador demais, olhando a trajetória da dupla, parece mesmo que é só uma questão de tempo.

 

Matéria publicada originalmente em: http://azmina.com.br

 

 AzMina  é uma revista online sem fins lucrativos que pretende usar informação para combater os diversos tipos de violência que atingem mulheres e dar ferramentas para que TODAS sejam ainda mais poderosas. Por acreditar no poder de transformação da notícia, o portal bem +Brasília juntou-se AzMina para disseminar ainda mais essa corrente. Conheça, apoie, junte-se a causa!

 

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