Análise: Lula, Bolsonaro e o mercado buscam remediar a saga da dívida do consumidor do Brasil

São Paulo (Reuters) – Os dois candidatos no segundo turno presidencial do Brasil neste mês ofereceram alívio das dívidas não pagas que estão pesando nas finanças da família e prejudicando o crescimento econômico.

Mas economistas e banqueiros dizem que suas soluções são ajudas secundárias em comparação com o impacto do consumo excessivo na economia brasileira – e os próprios credores estão encontrando novas maneiras de renegociar dívidas vencidas e tirar esse peso dos mercados de crédito.

Com quase 70 milhões de brasileiros na lista negra da agência de crédito Cerasa e devendo 290 bilhões de reais (US$ 54,4 bilhões), o alívio da dívida é uma política inteligente em uma campanha presidencial muito disputada, antes do segundo turno das eleições de 30 de outubro. Uma vez que um cliente inadimplente em qualquer empréstimo ou pagamento, os credores podem solicitar restrições em seu perfil de crédito se os esforços para obter o reembolso falharem.

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E o ex-presidente de esquerda Luis Inácio Lula da Silva, que liderou por pouco o primeiro turno da eleição, está propondo uma renegociação da dívida do consumidor apoiada pelo governo. Assessores dizem que o foco será primeiro em 95 bilhões de riais de contas não pagas acumuladas por famílias que ganham até 3.600 riais (US$ 676) por mês. As etapas subsequentes se concentrarão em incentivos para reestruturar a dívida bancária dessa população.

Na tentativa de roubar seu trovão, o titular de direita Jair Bolsonaro anunciou um programa que oferece um grande desconto na dívida bancária. Mas a abrangência é bem mais modesta, valendo para cerca de 4 milhões de tomadores da Caixa Econômica Federal, que estimou a reestruturação em cerca de 1 bilhão de reais.

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“Não vai mudar muita coisa”, disse Eduardo Martins, sócio da empresa de reestruturação de crédito ao consumidor MGC Crediativos, que estima o volume total de empréstimos inadimplentes no Brasil em cerca de 1 trilhão de reais, incluindo dívida bancária, crédito de varejo, telecomunicações e contas de serviços públicos.

Martins também estava cético sobre a facilidade de Lula colocar os credores na mesa: “Qualquer plano teria que levar em conta que 60% da dívida já foi vendida para outros investidores, então os incentivos dados aos bancos serão não funciona.”

O mercado secundário brasileiro de empréstimos inadimplentes cresceu exponencialmente nos últimos anos, uma vez que o banco central mudou a forma como exige que os credores providenciem perdas e os gestores de ativos se interessam cada vez mais por esse setor.

Eles também tinham muito com o que trabalhar, pois a desaceleração da pandemia, seguida de inflação em alta e picos de juros, começaram a aumentar as taxas de inadimplência e colocar mais famílias na lista negra da Serasa.

A reestruturação da dívida do consumidor é importante, mas terá impacto limitado se o Brasil não puder melhorar as condições econômicas subjacentes, incluindo alta inflação, desemprego e custos de empréstimos, disse Fabio Menton, ex-diretor executivo do garantidor de depósitos bancários FGC.

“Se você resolver o problema do crédito agora, mas as taxas de juros continuarem altas, enfrentará o mesmo problema em um curto período de tempo”, disse ele.

Os mercados mantêm-se ocupados

Por sua vez, o setor privado já está desmembrando e descontando a inflação das carteiras de crédito incobráveis ​​com empresas especializadas oferecendo descontos superiores a 90% em créditos vencidos antigos. Os credores originais, que muitas vezes anulam as dívidas integralmente, alertam contra a oferta desses termos diretamente aos mutuários por medo de que outros clientes parem de pagar.

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A empresa de reestruturação Pantalica Partners estima que cerca de 115 bilhões de reais em empréstimos inadimplentes foram vendidos no mercado secundário brasileiro somente este ano – quase cinco vezes mais do que em 2019.

A maior parte do volume está relacionada à venda de carteiras de crédito pelos maiores bancos de varejo, concessionárias e varejistas do Brasil. Cerca de 37 bilhões são vendas de dívidas corporativas incobráveis ​​para empresas individuais, como títulos.

Entre os maiores compradores de carteiras este ano estão as gestoras de ativos e empresas de gestão de crédito como Jive, SPC, Cerberus, BRD, Quimera e Quadra. A Intrum, uma das maiores gestoras de crédito da Europa, também abriu uma subsidiária no Brasil em 2020. Espera-se que taxas de juros mais altas aumentem a inadimplência de empréstimos e aumentem o total de ativos inadimplentes.

Os maiores bancos também possuem administradoras de crédito para reestruturar dívidas vencidas, como a Recuperação (de propriedade do Itaú Unibanco Holding SA (ITUB4.SA)), Retorno (Banco Santander Brasil (SANB3.SA)) e RCB Investimentos (controlada pelo Banco Bradesco SA ). ). ).

Desde a pandemia, muitos mutuários sobrecarregados têm usado sites dedicados a pagar suas dívidas com desconto sem precisar negociar com representantes dos credores. Todas as empresas especializadas em recuperação de crédito, como a Crediativos, têm seus sites com ofertas para tomadores.

Do total de renegociações de dívidas na Crediativos desde a pandemia, por exemplo, cerca de 70% foram feitas pelo site. Uma parcela menor de clientes usa call centers.

A maior parte da dívida que leva Serrassa à “lista negra” dos consumidores brasileiros é relativamente pequena – o valor médio em Serrassa é de 1.215 reais (US$ 228) e geralmente não é refinanciado, mas é pago com um grande desconto único. A inadimplência em grandes empréstimos, como hipotecas, é tratada de forma diferente, porque esses empréstimos geralmente têm garantias.

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Um grande leilão de empréstimos passivos está programado para as próximas semanas pela Emgea, empresa não financeira controlada pela Caixa Econômica Federal que detém cerca de R$ 60 bilhões em crédito com pessoas físicas e jurídicas, geralmente com alguma garantia. A maioria dos empréstimos estão vencidos há muito tempo e alguns estão vencidos há mais de 20 anos. A venda não tem nada a ver com o programa da Caixa que Bolsonaro anunciou aos pequenos mutuários.

Samuel Oliveira, fundador da Northstone Consulting, disse que grandes investidores internacionais em crédito em dificuldades estão analisando os ativos da Emgea e aumentando as compras de carteiras brasileiras. Ao contrário dos ciclos anteriores de taxas de juros mais altas, as famílias brasileiras têm maior endividamento. Os níveis de dívida atingiram níveis recordes em agosto, com cerca de 80% das famílias usando crédito, segundo dados do setor. O valor da dívida também aumentou. As hipotecas, por exemplo, que representavam 4% do PIB em 2010, chegaram a 10% do PIB no ano passado.

(1 dólar = 5,3284 riais)

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(Cobertura) Tatiana Bautzer Edição por Brad Hines e Nick Szyminski

Nossos critérios: Princípios de Confiança da Thomson Reuters.

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